quinta-feira, 17 de julho de 2014

Marla de queiroz...

"Abraço é coisa tão séria que não se empresta, se dá. E quando os corpos se encostam, todos os chakras se tocam. Abraço é coisa tão séria que junta os dois corações: pode ecoar para sempre ou esvaziar por inteiro. Pois quando a gente abraça, traz para dentro a pessoa: com bagagem, passado, infância, viagens e o principal: seu perfume espiritual. E o que recebemos nem sempre é o que damos, por isso alguns são afagos que nutrem por um longo tempo e outros, desespero pra matar a fome, um devoramento. Recuso abraçar levianamente, abraço com meu enrosco de afeto demais, amor puro, corpo colado para o abraço ser sentido, ter sentido. Abraço que é de verdade pode até ser dado de longe, pois ultrapassa as esferas e desconhece distâncias, é todo feito de encontro. Abraço é coisa tão séria que há de ser doce, leve, divertido, espontâneo, mesmo quando acalanto, colo ou celebração. A gente agarra por impulso de carinho porque a sintonia é a mesma. E quando o abraço termina, quando ele é dado de graça, fica a cosquinha no peito, uma brisinha na alma e a harmonia instalada."

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Salve vinicius

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Salve vinicius

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Os quartos - Fellipe Cosme

O quarto fecha-se na noite gelada,
há milhares de outros quartos
numa humanidade de quartos gelados,
há uma humanidade de humanidades
que se fecham na noite gelada.

os quartos parecem tristes,
mas não são tristes, apenas parecem tristes.
eles não nos enxergam, não nos vêem
com nossas cabeças quadradas,
com nossas almofadas gigantescas,
com nosso suor feito com o vinho do Porto.
vêem-nos felizes, pois somos felizes,
ninguém além dos quartos nos vê desse jeito,
por isso somos feitos para os quartos.

nos quartos, há os sonhos,
há as melodias que se entreolham
há a militância de um silêncio vagaroso,
há a água sugada pelo ar-condicionado,
há as plantas, há os livros, há o teto,
há milhares de passarinhos sussurrando de plantão.

não há nos quartos as pessoas.
as pessoas estão fora,
buscando comida para os quartos,
buscando mais pessoas para os quartos,
em outros quartos talvez
ou em lugares fechados maiores do que quartos,
talvez mais tristes ou mais alegres,
talvez com outros nomes,
diferentes de quartos,
mas estar no quarto e ver-se de dentro, é ser um sonhador,
é caçar na melodia do silêncio uma resposta,
e nada pode impedir-nos de sonhar com outros quartos.

nas noites geladas desta humanidade,
enxergar-se em todos os quartos
de todos os quartos
e ver-se entrando e saindo calado ou gritando, 
com um sol ou na pura escuridão do tempo
que estiver rugindo,
com pétalas para enterrar ou roupas
para acariciar a vida que nascerá em dias,
com um beijo cálido da namorada doente
ou uma cicatriz de doença de amor,
entrar e sair, jamais se esquecer do quarto ao sair.
no quarto das horas imprecisas,
dos momentos difíceis ou fáceis,  
das pedras ou montanhas ou cascatas,
da neve ou tempestade que entra pelas frestas da janela,
dos meninos que olham pra dentro
e só vêem um quarto,
das ruas que se embaralham
nas outras ruas de todos os mundos,
onde há quartos para todo mundo,
onde há mundo para todos os quartos.

sábado, 28 de junho de 2014

Razão de ser - leminski

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

SAUDADES DE NÃO SEI O QUE - Ana Angelica Martins

Pensei bem e decidi: vou largar a barra da saia da mamãe. Deixar pra trás  a cama sempre arrumada, as roupas limpas, o leite no pires. Não quero mais  ganhar presentes sem merecer, nem afagos a qualquer hora do dia. Me cansei dessa vida  de filho único. Estou com saudades de não sei o que, só sei que é de coisa que não vivi

Não quero mais gastar meus dias entre livros. Não quero mais perder a noção do tempo, imerso num mundo que não é o meu. Preciso descobrir o que existe do outro lado, sentir o perigo de perto. Quero sentir medo. Quero sentir paixão, ter o sangue pulsando agitado, das pontas dos pés até as orelhas.

Quero a prova de que tudo que eu ouço é verdade. Quero experimentar novos sabores... azedos demais, salgados demais, amargos... Preciso de um corte no dedo que cicatrize sem curativo. Preciso esperar no ponto por um ônibus que não vai chegar nunca. E quando todas essas coisas já forem rotina pra mim, vou correr na chuva, chorar ouvindo uma música, pegar um resfriado, ficar na cama sentindo a solidão, esperar telefones que não vão acontecer.

Mas, quando a felicidade me pegar de jeito, vou senti-la plenamente em cada poro, em cada célula do meu corpo. E celebra-la, como se eu pudesse ser o último no mundo a senti-la. Abro os braços, inspiro fundo e me lanço da janela. Quatorze metros e meio até o chão. Restam seis vidas.